“Estima-se que o HPV seja uma das infeções de transmissão sexual mais frequentes em todo o mundo”, sublinha a Direção-Geral de Saúde (DGS). Segundo a Liga Portuguesa contra o Cancro (LPCC), 75 a 80% das pessoas sexualmente ativas já tiveram contacto com o vírus em algum momento das suas vidas. A infeção por HPV é a causa de praticamente todos os casos de cancro do colo do útero. É silenciosa, com os sintomas a surgirem, muitas vezes, apenas quando a doença já progrediu para a sua forma invasiva. A vacina para o HPV é o método de prevenção primária mais eficaz e deve ser complementada com testes de rastreio regulares.
1) O que é o HPV?
É a sigla de Human Papiloma Virus (Papilomavírus Humano), um vírus muito comum que se transmite essencialmente por via sexual e que pode causar lesões cancerosas. Existem mais de 120 tipos diferentes de HPV. Alguns são de baixo risco, podendo provocar doenças benignas como verrugas genitais. Outros são de alto risco e podem originar diferentes tipos de doenças oncológicas – a que tem maior prevalência é o cancro no colo do útero. Os tipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 75% dos cancros do colo do útero. Se considerarmos a alta percentagem de infeção, podemos dizer que estes são casos raros, já que na maioria dos casos o vírus é eliminado espontaneamente ao fim de dois anos.
2) Como se transmite?
A principal forma de transmissão do HPV é a atividade sexual, seja por via vaginal, anal, oral ou contacto pele a pele. Como sublinha a American Cancer Society, o uso de preservativo nas relações sexuais confere alguma proteção contra o HPV– cerca de 70% –, mas não previne completamente a infeção. Isto porque o contágio é feito pele a pele, podendo existir transmissão através de áreas nos genitais não cobertas pelo preservativo. A transmissão de mãe para filho, durante a gravidez e parto, também é possível. Quanto à transmissão do vírus através de objetos contaminados, como roupa ou toalhas, pode acontecer, mas é raro. “O vírus do HPV é pouco resistente à ausência do seu ambiente natural e sobrevive pouco tempo fora dele”, explica a ginecologista Teresa Fraga.
3) Quais as doenças provocadas pelo HPV?
De acordo com dados da LPCC, o HPV está associado a 5% dos cancros da população em geral e a 10% de todos os cancros da mulher. É o responsável por praticamente 100% dos cancros do colo do útero e há outras doenças oncológicas que podem estar associadas ao vírus, como o cancro do ânus, da vagina, do pénis e da vulva. No campo das doenças benignas, verifica-se que 99% dos condilomas ou verrugas genitais estão associados ao HPV.
4) Que proporção das infeções evolui para cancro?
Segundo Teresa Fraga, ginecologista, “90% [das pessoas infetadas com HPV] eliminam o vírus espontaneamente num período de cerca de dois anos”. Dos restantes, cerca de 9% não desenvolvem doença grave – embora possam desenvolver doenças benignas, como verrugas genitais. Apenas 1% evolui para lesões pré-cancerosas. Neste caso, é importante que as lesões sejam diagnosticadas e tratadas em tempo útil, para que não progridam para cancro.
5) Que fatores determinam a evolução maligna da infeção?
Não é possível prever quem vai desenvolver doença a partir da infeção, já que tal depende do tipo de vírus e da resposta imunitária da pessoa infetada. Segundo a Organização Mundial de Saúde, há fatores de risco que podem contribuir para persistência do HPV e para o desenvolvimento de cancro do colo do útero:
- Ser fumador;
- Idade precoce da primeira relação sexual;
- Múltiplos parceiros sexuais;
- Medicação imunossupressora.
É importante reforçar a imunidade do organismo, adotando um estilo de vida saudável.
6) Quais os sintomas associados à infeção?
Na maioria dos casos, a infeção por vírus HPV não tem sintomas associados. Assim, pessoas infetadas podem transmitir a infeção a outros, sem terem sequer perceção de estarem infetadas. Dada a evolução assintomática da doença, é importante consultar regularmente o médico e testar a presença de HPV. Por norma, os sintomas só ocorrem demasiado tarde, quando a infeção já evoluiu para lesões graves ou cancros invasivos. No caso de tipos de HPV associados a doenças benignas, a persistência do HPV pode causar verrugas genitais detectáveis a olho nu. No caso de cancro do colo do útero, as queixas podem incluir perdas de sangue fora da menstruação, infeções de repetição ou dores pélvicas.
7) Quais são as formas de prevenção primária?
“Só a vacinação contra o HPV permite uma proteção eficaz contra os tipos de HPV incluídos na vacina”, ressalva a LPCC. Em Portugal, a vacinação contra o HPV no âmbito do Plano Nacional de Vacinação começou em 2008, estando a primeira dose prevista para meninas com 10 anos. As orientações da Agência Europeia do Medicamento indicam que todas as mulheres até aos 45 anos devem ser aconselhadas a fazer a vacina que, atualmente, não tem idade limite de administração. A vacina tem um papel de prevenção da infeção, não substituindo o tratamento das lesões já existentes. O uso de preservativo é importante, embora não garanta proteção a 100%.
8) A vacina protege contra todos os tipos de HPV?
Existem várias vacinas e cada uma previne infeções pelos tipos de HPV nela contidos:
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Bivalente
Previne a infeção pelos tipos 16 e 18, responsáveis por 75% dos cancros do colo do útero;
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Tetravalente
Previne a infeção pelos tipos 16 e 18 e também 6 e 11, que são HPV de baixo risco mas responsáveis pelas verrugas genitais ou condilomas.
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Nonavalente
Previne a infeção pelos 4 tipos da tetravalente e pelos vírus 31, 33, 45, 52 e 58, todos de alto risco e que juntos contribuem para mais 21-22 % dos cancros de colo do útero. A prevenção contra cancro do colo desta vacina atinge praticamente 94%.
Mesmo estando vacinado, é possível ser-se infetado por tipos de HPV de alto risco oncogénico – responsáveis por cerca de 5 a 7% dos cancros do colo do útero – ou por tipos de HPV de baixo risco. “Existem cerca de 40 tipos de HPV que infetam o aparelho genital, dos quais 14 de alto risco oncogénico. A vacina mais abrangente só protege contra nove desses 40, qualquer outro tipo de vírus HPV pode infetar uma pessoa vacinada”, aponta Teresa Fraga.
Por este motivo, é importante que mesmo as pessoas vacinadas façam rastreios regulares da infeção por HPV ou das lesões precursoras do cancro do colo do útero.
9) Como e com que regularidade deve o rastreio ser feito?
Segundo a DGS, o rastreio pode ser feito através de citologia do colo do útero (teste de Papanicolau) ou do teste de HPV, sendo este “o mais sensível para a deteção destas lesões”.
Segundo Teresa Fraga, a citologia permite fazer o rastreio específico de cancro do colo do útero ou lesões iniciais. Deve ser feita pela primeira vez aos 21 anos, sendo repetida a cada dois anos. A citologia tem maior probabilidade de obter um falso negativo no caso de mulheres com lesões graves, “mas tem a vantagem de ser muito específico, com pouquíssimos falsos positivos”, considera.
Já o teste de HPV “permite aumentar o intervalo de rastreio e só deve ser feito a partir dos 30 anos. Se o resultado for negativo, pode ser repetido a intervalos de 5 anos. Também permite pesquisar a infeção no ânus, região oral e orofaringe, embora nestes locais ainda não esteja estabelecido como teste de rastreio”, explica a especialista. Segundo a ginecologista, este teste “tem uma altíssima sensibilidade, o que significa que praticamente não há ‘falsos negativos’”. No entanto, tem a desvantagem da “elevada percentagem de testes positivos em pessoas sem doença”.
10) Existe tratamento para o HPV?
A infeção por HPV não tem tratamento. A eliminação espontânea do vírus ocorre, como referido, em 90% dos casos. Caso a infeção persista e dê origem a lesões pré-cancerosas, as mesmas podem ser tratadas com a destruição ou extração do tecido afetado. Também as verrugas genitais podem ser tratadas. É importante que a intervenção ocorra rapidamente, uma vez que são altamente contagiosas. Mesmo assim, de acordo com a LPCC, a sua recidiva é na ordem de 30% dos casos.
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Proporção de mulheres dos 18 aos 64 anos que tem infeção por HPV em Portugal
Tome nota
O HPV transmite-se por via sexual, afetando tanto homens como mulheres de todas as idades. “Não há uma população específica que seja mais afetada pela infeção” e “basta uma relação sexual com um parceiro ou parceira infetada para que haja uma contaminação com o vírus”, desmitifica Teresa Fraga.
Colaboração
Drª Teresa Fraga
Ginecologista-obstetra
Consultora da Unidade de PTGI (Patologia do Trato Genital Inferior) da CUF Descobertas